"Les tableaux sont effrayants, les principes sont perverts, les conséquences sont terribles, et c'est pourquoi nous avons écrit. S'il est dangereux de parler, il serait perfide de se taire." Jean-Pierre Louis de Luchet
17 de Novembro de 2010

 

 

O Alves veio falar comigo, em busca da sua bisemanal semanada, que lhe institui há algum tempo, num acordo tácito e sem palavras.

 

- Cortaste o cabelo, Alves. Estás com bom aspecto.
- Vai caralho - respondeu o Alves, virando-me as costas.

 

O Alves é o denominado sem-abrigo, dorme na rua, vive na rua, mas não admite confianças. Provavelmente porque tresandam a paternalismo e ele é uma criatura cheia de dignidade e ciente do seu espaço. Não vende o que é. Mas teme.


Um dia, uma colega cumprimentou-o e ele respondeu, desabridamente:
- Conhece-me de algum lado?


Ela pediu desculpa, e nunca mais o fez.
O Alves não fala com ninguém. A única pessoa a quem o Alves permite um arremesso de intimidade sou eu. Nos curtos diálogos que travamos, responde-me sempre com uma  voz estranhamente baixa e cavernosa. Uma voz que parece vir de muito, muito longe.
De um mundo remoto, onde se perdeu dos restantes seres viventes. E dele próprio.


O Alves dói. Dói-me ainda mais no tempo frio e nas noites de chuva. É uma dor toda feita de impotência. Aliás, é uma pré-dor, como uma leve agrura, que nos avisa que um dente se prepara para nos dar problemas sérios. Indago-me amiúde sobre o móbil da minha preocupação. Será por desinteressado humanismo? Impotência perante a incongruência de toda esta película de série B? Momentos surgem em que me vejo na pele dele. Talvez o faça por isso. Amizade, pela certa.


Sei o seu nome, graças ao senhor Manuel da taberna onde costumo almoçar, que o conheceu na noite dos tempos em que ele falava e vivia no bairro, numa casa como toda a gente. E andava pelos bares, bebendo nada. Parece que quando a mãe morreu, ele ficou sem casa e sem capacidade de se reger pelas nossas regras de vida. Há cerca de dez anos. Foi utente de vários estabelecimentos prisionais e ninguém lhe conhece familiares.

 
Nos tempos em que falava era um homem altivo, grande e bem constituído, bonito e assustador. Uma espécie de viking de cabelo louro desalinhado, que já olhava o mundo com bastante desprezo. Agora é um velho curvo e só. A rua transformou-o, ano após ano, num vagabundo enorme, gordo, silencioso, uma figura apocalítpica de cabelos emaranhados, barba cerrada, que vê televisão diante das montras de um qualquer café de Alcântara, sempre acompanhado da sua estimada bengala.

 
Não pede esmola. Nunca.


Às vezes encontro-o sentado nos degraus da igreja ou na entrada do parque de estacionamento. Nessas alturas, parece-me o hóspede desconhecido, esse deus oculto num farrapo quase humano, que vigia a nossa humanidade ou a falta dela, pela forma como nos comportamos.

 

 Dou-lhe um cigarro, estende-me o isqueiro. O apogeu desta hora de almoço durou os exactos cinco minutos que as labaredas demoraram a consumir o invólucro de papel. Sorrimos. Amanhã? Who gives a damn?

coagitado por Daniel Martins às 13:02
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Claro que à esquerda não há extremistas. Sempre a ...
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Temos os líderes que merecemos.
Não me ocorre nenhuma maneira melhor de passar um ...
Mas quando?
Gosto das ideias, mas deviam rever o grafismo do b...
Gostei! Continua assim, indomável...
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